Meu
muito amado filho Estêvão
Hoje
vais ficar com dois números de anos de vida pela primeira vez. O grande 10! Agora
só daqui a 90 anos volta a mudar esta questão dos dois números de aniversário e
nessa altura seguramente eu já cá não estarei.
Há
mais ou menos uma semana luto interiormente com a questão “o meu filho vai
fazer 10 anos!”, Como? Onde passou o tempo tão depressa? Como é possível? O que
é que fiz bem? O que é que fiz mal? O que poderia ter sido diferente? Como vai
ser agora? ….
Onde
está o bebé que ontem por cesariana saiu da minha barriga?
Onde
está o bebé que mamava até adormecer?
Onde
está o bebé que esticava os braços a pedir colo?
Onde
está o bebé que rebatizou uma cadela de 13 anos que nunca mais foi Dorothy, como
se chamava verdadeiramente, para passar a ser Duda?
Onde
está o bebé que usou uma prótese no pé, mas que se ria as gargalhadas da vida
como se não doesse nada?
Onde
está o bebé que usava um bibe aos quadradinhos vermelho e que corria para mim
quando o ia buscar à creche e me lambia a cara toda com chocolate?
Onde
está o bebé sem medo que corria para o mar e apanhava ondas?
Onde
está o bebé que sempre comeu de tudo como o mesmo gosto de um crescido?
Em
10 anos de vida passamos da tua palavra-chave “cocol e quinquila” para saberes
usar o dicionário para as palavras que não conheces, sabes falar e escrever inglês,
descobriste que há muitos tipos de amor no coração, acreditas que há um Deus
que te conhece e te acompanha, aprendeste a ler, escrever e contar, conheces o
cognomes dos reis das dinastias todas e sabes o que foi o 25 de abril, sabes o
que foi o Estado Novo e quando foi a implantação da republica, conheces os
sistemas do corpo humano e os ciclos de vida dos animais mas também sabes onde
se colocam as mascaras descartáveis, o que vai no lixo amarelo e o que fazemos
em nossa casa com as capsulas de café e com os plásticos de uso único, sabes
que há pessoas que não tem o que tu tens e que temos obrigação moral de as
ajudar, custe o que custar e que não vamos nunca chutar com a barriga ou olhar
para o outro lado a fingir que não está lá, sabes que a mentira tem perna curta
e que aconteça o que aconteça falar a verdade é sempre sempre sempre melhor, sabes
que o dinheiro custa muito a ganhar mas que o trabalho engradece, sabes
desenhar como os adultos e isso a mim pessoalmente assusta-me, assusta-me a
maneira incrível como pões os teus dons ao serviço, acho lindo o mundo dos
super-heróis onde ainda vives onde tu selecionas os superpoderes que queres
ter, mas incrivelmente não te esqueces daqueles que já tens. Nunca te esqueças
disso mesmo, tu ainda não tinhas saído de dentro da minha barriga e as tuas
células estaminais já tinham ajudado um outro menino a sobreviver a um cancro,
esse é o teu superpoder sabias? Tens o poder de suavemente como se quer, marcares
a vida das pessoas com quem te cruzas.
Como
tua mãe agradeço-te teres feito de uma bola de barro amorfa sem qualquer
capacidade de amar uma mulher capaz de se dar, de amar sem porquê, para quê, ou
quanto e não só a ti, mas mostraste-me que há muitas estrelas no mar e no céu só
é preciso confiar e procurar aquele que tenha os braços todos ou não, mas que esteja
disposto a ser imperfeito junto. Obrigada por me mostrares nestes 10 anos de
vida em comum como é perfeito não se ser perfeito, quando o teu pé não veio
como o sonho queria veio como veio e isso mostrou-me que não há paraísos, e
príncipes perfeitos, mas sim pessoas que podem ser absolutamente maravilhosas
porque são diferentes e que não há tempos perfeitos de estar ou de ser que na
vida é pegar no que se tem e fazer o que se pode. Obrigada por me mostrares que
eu tenho muito mais coragem do que aquela que algum dia achei que teria e olha
que eu já achava que tinha muita. Muito obrigada por não teres medo de
cresceres e de aprenderes e de me deixares fazer esse caminho contigo.
Obrigada
por seres um grande companheiro de petiscos, companheiro de risada, companheiro
de sessões de Netflix, companheiro de passeios a pé, de dias de praia, de
campismo, de mergulhos no mar, de viagens seja por que meio de transporte seja,
obrigada por seres como eu e conjugares o verbo “ir”, “experimentar”, “provar”,
“passear”, “conquistar” em todos as formas verbais. E obrigada a ti por me
ensinares a conjugar o verbo “amar”, “perdoar”, “fazer o bem” em todos os
tempos verbais.
Obrigada
por me teres escolhido nesse sítio onde os filhos escolhem as mães, e me teres
escolhido a mim a menos provável e mais imperfeita das candidatas seguramente.
Obrigada,
por em 10 anos me teres dados os maiores sustos da minha vida, mas também as
maiores alegrias possíveis.
Estes
dois últimos anos foram complicados para nós os dois a todos os níveis, muito
trabalho, ensino a distância, lockdowns, ausência de amigos, mais tempo em
casa, menos na rua e tanto e tanto e tu portaste te como um leão e em tudo
aprendeste, choramos os dois muito nestes 10 anos e eu mais do que imaginas,
mas tudo isso valeu a pena, tanto, tanto, tanto…. Se faria tudo de novo? Sem a
mínima duvida.
O
que te desejo para este ano que agora se inicia? O que te desejo para esta
volta ao sol que agora se inicia?
Que
cresças devagar. Que nunca deixes de procurar os teus superpoderes e os teus
super-heróis preferidos. Que estudes com vontade sabes que isso é importante
mesmo que as vezes não lhe vejas muito o sentido, confia em mim, eu sei. Que
confies em ti sempre, na tua sensibilidade, na tua alma, na tua intuição. Que
tenhas sempre a tua volta amigos e pessoas que te amam pela pessoa que és. Que
tenhas umas férias de verão sensacionais que bem mereces. Que continues com
essa vontade de desenhar este mundo e o outro. Que encontres muitos céus azuis,
amor no coração, estradas largas, o sol na cara, beijos e abraços, Algarve,
Alentejo, mergulhos nas Berlengas, escorregas de água, gelados em Sesimbra, chocolates
e lasanha.
Tem
sido um absoluto privilégio acompanhar te neste teu caminho. Prometo continuar
ao teu lado a dar-te a mão quando me pedes a largar te quando insistires e a
fazer as coisas a tua velocidade como desejas.
Amo-te
perdidamente daqui a lua e de volta a terra milhões de vezes. O meu sol nasce e
põe se em ti hoje e sempre, diariamente.
Tua
mãe.
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